Para os raros que ainda sabem sentir
- Felipe Daroit

- há 6 dias
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Eu nunca consegui fingir encantamento pelo mundo moderno. Essa vitrine iluminada onde todo mundo tenta parecer vivo enquanto mal aprende a respirar.
As pessoas tratam a existência como se fosse um currículo emocional, colecionando experiências como quem coleciona selos, mas incapazes de sentir o próprio corpo quando o vento muda de direção.

Enquanto correm atrás de telas como peregrinos ansiosos por milagres em alta definição, eu continuo escolhendo o que não cabe em notificações. O pôr do sol que morre sem fazer propaganda. O cheiro de terra depois da chuva, que devolve lembranças que ninguém pediu. O céu noturno, que insiste em continuar infinito mesmo quando o mundo inteiro prefere olhar para o próprio reflexo.
Sempre admirei os que ainda param. Os que se recusam a transformar o tempo em uma corrida de ratos com filtro vintage. O mundo acha bonito quem produz. Eu gosto de quem percebe. Gente que sabe conversar sem tentar vencer. Gente que não tem alergia ao silêncio. Porque o silêncio nunca foi ausência.
O silêncio é apenas o lugar onde a verdade se esconde quando o barulho vira regra.
Vivemos cercados de pessoas que se encantam com o pôr do sol, mas só depois de ajustar o contraste. Fotografam a beleza como quem captura troféus, mas não sentem nem dez por cento daquilo que exibem. Não é culpa delas.

A sensibilidade virou quase uma doença autoimune: o corpo rejeita antes de compreender.
Eu quero árvores. Árvores que crescem sem pedir licença. Árvores que não precisam de público para existir. Árvores que não se comparam, não se apressam, não enlouquecem com a ideia de estar atrasadas. No fundo, invejo essa confiança vegetal. Enquanto isso, nós surtamos porque alguém não visualizou a mensagem. Evolução, chamam. Eu chamo de decadência com Wi-Fi.
Gosto das tempestades porque elas lembram que a ordem é apenas uma superstição coletiva. Todo mundo finge controle até o céu resolver responder.
A chuva não negocia com expectativas. Ela simplesmente cai. E talvez seja por isso que tanta gente tenha medo de sentir. Emoções não seguem cronogramas. Não mandam aviso prévio.

Gosto de pessoas que conversam como quem atravessa florestas. Que não têm pavor de profundidade. Hoje todo mundo quer ser oceano, mas não suporta uma gota de verdade. As pessoas se afogam na própria superfície e ainda culpam o mundo por não ter salvado.
Enquanto disputam quem brilha mais, eu sigo preferindo as coisas que iluminam sem barulho. A luz dançando no chão da floresta, por exemplo. Aquilo não está tentando ser bonito. Apenas é. Existe uma linguagem secreta ali, anterior às palavras, feita de respirações. Quem entende, entende sem esforço. Quem não entende chama de exagero.
Talvez o encantamento seja a última forma de rebeldia possível. Em uma época em que sentir virou fraqueza, ainda me emociono com o vento passando entre as folhas. Como se a natureza respirasse por mim quando eu esqueço.
Eu quero magia. Não essa magia industrializada, com frases de efeito e pessoas felizes demais para serem verdadeiras. Eu quero a magia que acontece no invisível. A conversa que muda tudo sem levantar a voz. A presença que transforma sem precisar ser explicada. Aquelas almas que você reconhece antes de saber o nome.
Sim, ainda me sensibilizo com quem prefere profundidade à performance. Talvez sejamos minoria. Talvez sejamos uma espécie em extinção. Mas prefiro ser raro do que ser treinado para não sentir nada.
A indiferença virou moda. Só esqueceram de avisar que é uma moda que não aquece ninguém.

O mundo moderno não me prende porque aprendi uma coisa que quase ninguém admite: viver não é acumular experiências, é prestar atenção. A maioria atravessa a vida como quem folheia um livro sem ler nenhuma página. E quando chega ao fim, ainda reclama que a história não fez sentido.
No fim, percebo que o verdadeiro milagre não está no pôr do sol, nem no cheiro da chuva, nem no vento entre as folhas. O milagre é que ainda existam pessoas capazes de sentir tudo isso sem anestesia. Pessoas que permanecem sensíveis em um mundo treinado para sobreviver, não para existir.
E eu finalmente entendi: não somos raros porque vemos beleza. Somos raros porque ainda não desistimos dela. E no tempo em que tudo é descartável, permanecer vivo por dentro é o único ato de coragem que ainda vale a pena.




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