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AQUILO QUE IGNORAMOS TODOS OS DIAS Por Felipe Daroit

A gente passa a vida como quem aguarda um espetáculo que nunca estreia.

Esperamos o clarão, o aplauso, o extraordinário com tapete vermelho... e, enquanto isso, a vida, nada boba, passa de chinelos, tomando café, sem sequer olhar para trás.

Ser feliz é abrir os olhos e perceber que a paz não faz alarde.É acordar e não sentir dor — esse luxo silencioso que a juventude despreza e a velhice venera.É ouvir a voz de quem você ama antes que a pressa do dia a engula.É ter comida na mesa sem precisar travar uma guerra para conquistá-la.É saber que, ao fim de um dia que mastigou suas forças, ainda existe um teto esperando por você.

Felicidade é café coado na hora — aquele perfume que parece empurrar a alma de volta pro corpo. É roupa no varal, dançando com o vento, como se não soubesse que o mundo está caindo aos pedaços.

É voltar para casa no fim do dia e sentir que as paredes reconhecem o seu cansaço.

Mas a gente insiste em desprezar o banal.Quer a vida como trailer de cinema: cenas em câmera lenta, música épica, final arrebatador.Só que a vida não é isso.Ela é pão amanhecido, abraço rápido, conversa de corredor.

O milagre já está aqui. E é tão óbvio que chega a ser ofensivo.

Ele não veste capa, não tem efeitos especiais.Vem disfarçado de rotina, camuflado de uma terça-feira qualquer.Mas você prefere esperar pela sexta, como se o resto dos dias fosse descartável.

E sabe o que é pior?A vida não está nem aí para a sua expectativa.Ela acontece de qualquer forma — com ou sem o seu encantamento.

Quando você finalmente perceber o valor do básico, talvez ele já tenha virado luxo.

Então continue esperando o extraordinário, se quiser.Mas não se surpreenda quando descobrir que ele estava na mesa da sua cozinha, ao lado de um café morno que você esqueceu de beber.

A vida nunca prometeu fogos de artifício, caros leitores.Nós é que fomos adestrados para esperar o grande espetáculo, enquanto esquecemos de viver o ensaio.

O extraordinário não manda recado, não faz fila, não acena. Ele passa, silencioso, bem diante de nós.

 
 
 

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