Morri e descobri que a vida não pausa nem para o protagonista
Morri numa quinta-feira qualquer. Não houve trilha sonora, nem céu rasgando em dramaticidade barata. Foi quase administrativo. Como encerrar uma conta bancária sem saldo, ou cancelar um plano de celular que nunca funcionou direito.
A morte, no fim, tem o mesmo gosto de fila de cartório. O espetáculo começou depois, claro. Sempre começa depois. Em vida, eu era um detalhe, um ruído de fundo entre boletos e compromissos. Morto, virei pauta. Virei agenda. Virei logística.
Meus familiares enfrentaram o ritual burocrático com a mesma expressão de quem resolve um problema no banco, senha na mão, dignidade no bolso e paciência parcelada em doze vezes sem juros. Assinaram papéis, reconheceram firmas, carimbaram minha ausência como se fosse uma nota fiscal. A morte transforma gente em documento. É o último downgrade da existência.

Eu, que nunca fui santo, mas também não fui exatamente um canalha profissional, fiquei ali, reduzido a um corpo bem vestido, finalmente obediente.
Engraçado como a morte corrige a postura de quem passou a vida inteira desalinhado. De repente, você vira exemplo. Não fala, não contesta, não irrita. Um cidadão exemplar. Tarde demais.
Minha trajetória? Uma coleção de quase. Quase fui menos refém do relógio. Quase entendi que trabalhar demais é uma forma elegante de fugir daquilo que realmente importa. Troquei domingos por prazos, almoços em família por reuniões que ninguém lembraria uma semana depois.
Fui um devoto da urgência inútil.
E o curioso é que ninguém te avisa que você está desperdiçando a própria vida. Ou melhor, avisam, mas com frases tão clichês que você ignora por legítima defesa intelectual. A verdade chega sempre disfarçada de banalidade, e a gente tem alergia ao óbvio.
No velório, aquele desfile previsível de rostos que eu não via há anos. Gente que não me visitava quando eu ainda respirava, mas que agora fazia questão de comparecer, talvez para confirmar que eu realmente tinha parado de incomodar. A morte, veja só, é o evento social mais eficiente que existe. Reúne pessoas que nem algoritmo consegue juntar.
Ali estavam eles, com suas caras de luto protocolar, como quem veste um terno emprestado para um papel que não ensaiou. Alguns choravam. Outros apenas encenavam o silêncio respeitoso, esse teatro minimalista da hipocrisia contemporânea.

Se estivesse vivo, teria pedido para não virem. Não gosto de visitas. Muito menos de plateia. Mas morto, você perde o direito de reclamar. Finalmente.
O mundo, claro, seguiu. Como sempre segue. O padeiro acordou antes do sol, o ônibus atrasou, o casal da esquina brigou por causa de ciúmes reciclados, alguém traiu alguém, alguém amou alguém, alguém fingiu tudo isso nas redes sociais. A engrenagem não emperra por causa de um cadáver a mais.
E aqui entra a ironia mais brutal, aquela que ninguém posta no Instagram com filtro quente. Você não faz falta para o mundo.
No máximo, faz falta para alguns poucos, por algum tempo. Depois, até a saudade aprende a conviver com a ausência, como um inquilino que reclama no começo e depois para de pagar aluguel emocional.
Enquanto eu jazia ali, perfeitamente imóvel, percebi o quanto minha vida foi administrada como uma empresa falida tentando parecer lucrativa. Cumpri ordens que não faziam sentido, respeitei hierarquias que não respeitavam ninguém, tratei a existência como um checklist. Acordar, produzir, responder, entregar, repetir. Um hamster corporativo correndo numa roda com nome bonito.
E, no fim, virei isso, um corpo dentro de uma caixa de madeira, mais silencioso do que jamais fui em vida. Talvez Emil Cioran tivesse rido dessa cena com aquele cinismo elegante que só os lúcidos possuem. Em Breviário de Decomposição, ele escreve que “não é a dificuldade que nos faz desistir, é a lucidez”. A lucidez de entender que passamos anos negociando com ilusões baratas, como se a vida fosse um mercado persa onde se troca tempo por importância imaginária. E eu negociei muito mal.

Também me ocorreu, com um atraso imperdoável, aquilo que Montaigne já havia avisado em Ensaios, “filosofar é aprender a morrer”. Passei tanto tempo tentando aprender a viver que esqueci de ensaiar o fim. Resultado, fui pego de surpresa pelo único evento que era 100% garantido. E ainda assim, não houve tragédia. Só constatação.
Meu velório, ao menos, teve um mérito raro. Foi rápido. Nada de maratonas religiosas que transformam a morte em resistência física para os vivos. Nenhuma ladainha interminável tentando negociar minha alma como se fosse um produto em liquidação espiritual.
E, graças ao pragmatismo de quem organizou o protocolo, não havia aquelas flores com cheiro de cemitério. Lírios da paz nunca me convenceram. Paz que fede não é paz. Acho que deve ser propaganda enganosa da natureza.
Ali, entre um suspiro contido e um bocejo disfarçado, compreendi o que a maioria só admite no leito final, quando já não há tempo nem para arrependimento eficiente.
A vida não é um ensaio geral. Não existe versão beta da existência. Não há rascunho. Você vive como quem escreve direto na pedra, mas age como se estivesse rabiscando num guardanapo descartável.
E talvez esse seja o grande delírio coletivo, acreditar que depois a gente resolve, depois a gente liga, depois a gente ama melhor, depois a gente desacelera, depois a gente vive. Depois é um país que não existe. E, ainda assim, tem mais habitantes do que qualquer nação real.

No fim, não fui um desastre, mas também não fui memorável.
Fui o que a maioria é, uma tentativa honesta com execução mediana. Nem herói, nem vilão. Um figurante que acreditou, por vaidade ou ingenuidade, que era protagonista.
E aqui está o ponto que ninguém gosta de encarar.
A morte não revela quem você foi. Ela escancara quem você não teve coragem de ser.





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